O Futebol profissional tem, ao longo dos últimos anos, registado um aumento considerável de jogos numa época, o que faz com que os calendários fiquem progressivamente mais densos com todas as implicações desportivas e financeiras que isso tem para os Jogadores, Clubes e Seleções. Os direitos televisivos e a sua distribuição equilibrada são um fator de receita fundamental na sustentabilidade de todas as organizações ligadas ao Futebol, sejam Clubes, Federações, UEFA, … As receitas poderão ser provenientes dos jogos, da publicidade e, nalguns casos, de séries televisivas como o All or Nothing.
O aumento da quantidade de transmissões gera mais proveitos e, invariavelmente, mais pressão nos jogadores, treinadores e no planeamento estratégico dos Clubes para que possam ser competitivos ao longo de toda a época. As competições de seleções adicionam jogos e viagens (algumas muito longas) a este calendário.
Competições nacionais e internacionais de clubes
Na Europa, os maiores clubes competem entre 50 a 60 jogos oficiais (entre agosto e junho), aos quais teremos que juntar os jogos de preparação de pré época, muitos dos quais com transmissão televisiva e geradores de proveitos que na maioria dos casos cobre o custo das pré épocas. Os clubes que jogaram os play offs de promoção em Inglaterra enquadram-se nesta quantidade de jogos.
No Brasil, em 2022, Palmeiras e Flamengo competiram 72 e 77 jogos respetivamente. No Futebol profissional de topo as maiores equipas da Serie A do Brasileirão sofrem os maiores desafios com o número de jogos, quer seja pela frequência semanal, pelas viagens (dentro do Brasil e do continente Sul Americano) e os diferentes climas onde competem. O calendário destas equipas tem, frequentemente, jogos de 2 em 2 ou 3 em 3 dias.
Os jogos nas seleções
Os jogos internacionais adicionam eventos e viagens, muitas delas intercontinentais, com fusos horários diferentes o que condiciona todo o processo de preparação das equipas. Em anos de Mundial, Europeu, Copa América, Copa da Ásia, Jogos Olímpicos, etc, as épocas alongam-se ainda mais. No entanto, estes jogos representam a identidade cultural dos países, das pessoas, numa expressão muito positiva dos povos. Não é por acaso que são cada vez mais raros os casos de violência em jogos de seleção. Trabalhei em África e toda a minha experiência foi muito positiva.
Destaque neste ponto para um incremento de jogos de caráter oficial também nas seleções Europeias menos fortes através dos sistema criado na Liga das Nações. Esta competição abriu oportunidades de desenvolvimento e visibilidade a um conjunto de países que doutra forma não as teriam.
O impacto nos jogadores, na redução da off season e o treino
Os jogadores têm estado sujeitos, de forma progressiva, a este aumento de jogos por época, o que aumenta sobremaneira o risco de lesão. A recuperação entre jogos é um fator determinante para predispor os atletas para competir. Outros aspetos como a nutrição, o repouso, a qualidade do sono, a análise de jogo ou o treino mental necessitam de investimento e detalhe.
A densidade das épocas tem também alongado os calendários competitivos. Esta época foi uma exceção (Mundial do Qatar) mas penso que será uma tendência tendo em conta as intenções das organizações internacionais do jogo, FIFA e UEFA, de aumentarem a frequência de competições internacionais. Isto reduz o período de férias dos jogadores aumentando o risco de lesão. O sobre treino e os efeitos da pressão a nível emocional tem um impacto fortíssimo nos atletas, sendo que os Clubes cada vez mais se preocupam em criar estruturas de apoio para responder a esta necessidade.
Recuperação também é treino, e, há muito para se treinar em regime de recuperação dentro e fora do campo. O desafio para os treinadores de Clubes e Seleções será o de prescrever a quantidade adequada de treino, tendo como base a premissa individual, de conhecimento profundo do jogador e da equipa, como reage ao sucesso / insucesso. A comunicação entre todos os departamentos de performance é uma necessidade para trabalhar com máxima qualidade na “quantidade certa.”
Refletimos cada vez mais sobre a rotatividade como uma necessidade de motivação e preservação da saúde dos jogadores (e das equipas), mantendo-os no seu melhor procurando garantir a qualidade de jogo e competitividade. Este fator é influenciado pela qualidade e quantidade de soluções dos plantéis. Deixo 2 exemplos de alta qualidade na gestão deste fator com plantéis de dimensões muito diferentes, O Manchester City de Pep Guardiola e o Palmeiras de Abel Ferreira.
Planeamento estratégico
Às organizações, sejam Clubes ou Seleções, exige-se um planeamento estratégico naquilo que são a constituição dos plantéis, aumentando de forma sustentável o número de jogadores. Mais que quantidade interessa ter qualidade que faça face ao número de jogos sem afetar o rendimento coletivo.
É fundamental investir ao nível de todos os departamentos que influenciam a performance (médico, análise, scouting, logístico, apoio ao jogador, tecnológico, formação, …) de igual forma para que haja uma direção, uma visão de projeto a longo prazo. Neste processo há detalhes que complementam este investimento e que são determinantes para atenuar os desafios da densidade competitiva. A organização dos percursos das viagens, a escolha dos hotéis, dos campos de treino, dos meios de recuperação dentro e fora das organizações, as refeições, etc, são detalhes que terão que ser cuidados e realisticamente integrados no processo de preparação.
A preparação das épocas / convocatórias é um processo trabalhado em equipa, entre as equipas técnicas que definem perfis por necessidade com a direção desportiva, passando pelo scouting organizado na busca das melhores soluções até à decisão final pelo diretor esportivo e diretor geral, todos os detalhes contam. As equipas que se organizam com maior antecipação e têm maior critério nos processos tomarão decisões mais assertivas. Isto não exclui nenhuma de ter resultados menos conseguidos ou uma época menos boa, porém aproxima os Clubes / Federações de ter resultados positivos com sustentabilidade no tempo, ganhando atractividade para gerar receita e / ou investimento, caminhando na direção da sustentabilidade.
Termino à volta dos atletas, do centro do jogo em conjunto com a bola, o campo e as balizas, pela importância que têm para estarem disponíveis para jogarem com qualidade. Com maior ou menor quantidade de jogos, o prazer pelo jogo, por dar o máximo pela equipa tem de estar sempre presente. A nós, responsáveis pelo processo de preparação, cabe-nos tratar dos detalhes, da qualidade e quantidade de todos os processos para predispor os jogadores a jogar o melhor jogo possível.



